Cruzes de Marfim com um Braço Quebrado

Identificador: 
OB-19
Tipo / Uso: 
Material: 
“dente de cavalo marinho” (hipopótamo) (“Processo de Aires Fernandes”, em: ANTT, IL, p. 13087, ff. 18 e 19 apud BONCIANI, 2020, p. 272)
Tipo de Operação: 
Data da Operação: 
c. 25/08/1595
Observações: 

A comercialização de itens religiosos era abundante e demonstra a amplitude das apropriações africanas do cristianismo. Imagens de santos, de Nossa Senhora e do menino Jesus, bulas papais, relíquias e crucifixos estavam entre esse tipo de mercadoria. Nesse sentido, a cruz foi um dos símbolos mais importantes de comunicação entre as culturas judaico-cristã e as da África Centro-Ocidental. Para os centro-africanos a cruz remete à relação entre os vivos e os mortos, ao ciclo completo da existência, que inclui o mundo dos homens, e o dos espíritos e ancestrais. Símbolo maior da morte de Cristo, também para os cristãos a cruz liga-se à morte e à ressurreição. Era, portanto, um espaço de correlação privilegiado, entre a África e a Europa, entre a vida e a morte (SOUZA, 2006: 457 apud BONCIANI, 2020, p. 284). As cruzes de marfim com um braço quebrado eram na verdade cruzes tau. Assim chamadas por sua semelhança com a letra tau (τ) presente nos alfabetos grego e hebraico. Era uma cruz da tradição judaica e do cristianismo primitivo, criada a partir da cruz egípcia (MONREAL, 1997: 26 apud BONCIANI, p. 284). Durante o processo do pombeiro Aires Fernandes (1595 - 1603), cuja alcunha era Dinga Dinga, Fernão Sanches, então testemunha e denunciante, explica que as cruzes vendidas por Aires Fernandes eram assim pois o mesmo acreditava "que o seu messias não era ainda vindo e que na lei velha não havia cruzes" (“Processo de Aires Fernandes”, em: ANTT, IL, p. 13087, f. 1. apud BONCIANI, p. 284). Por fim, a cor branca para os bakongo associava-se ao mundo dos mortos, representando a cruz branca um simbolismo especial na relação morte-ressurreição.

Como citar este verbete: 
Bonciani, Rodrigo F.. "Cruzes de Marfim com um Braço Quebrado". In: Base de Dados BRASILHIS: Redes pessoais e circulação no Brasil durante o periodo da Monarquia Hispânica (1580-1640). Disponível em: https://brasilhis.usal.es/pt-br/node/12003. Data de acesso: 24/02/2024.