Convento Franciscano do Rio de Janeiro

Identificador: 
RE-41
Tipo: 
Lugar: 
Cidade do Rio de Janeiro
Fecha Inicial: 
1608
Convento Franciscano do Rio de Janeiro
Observaciones: 

Padroeiro(a): S. Antônio

Município atual: Rio de Janeiro (RJ)

Fundação: 1608

Fundado durante o governo do custódio franciscano Fr. Leonardo de Jesus, OFM

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"A 23 graus e um terço de latitude sul e 80 parasangas da Capitania do Espírito Santo e da vila de Vitória localiza-se a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, donde chegaram insistentes pedidos do Governador, da câmara e de outras pessoas a todos os Custódios para que construíssem lá um convento, pois a terra a isso se prestava e muitos frutos poderiam redundar em bem das almas e serviço de Deus. Tal pedido obteve resposta afirmativa somente no ano de 1608, quando Frei Leonardo de Jesus, pela segunda vez Custódio desta santa Custódia, embarcou com seis Frades para a dita Capitania. Foram recebidos na cidade pela nobreza e pelo povo com provas de indizível amor, como se fossem anjos. Após o descanso das fadigas da viagem. Frei Leonardo de Jesus tratou de escolher, dentre os locais sugeridos, o mais apropriado. Nosso pai S. Francisco e Sto. Antônio, a quem se devia dedicar esta casa, quiseram mostrar o quanto lhes agradou o lugar onde a casa depois foi construída; era ótimo para a devoção do povo; além disso, quando nele eram cavados os fundamentos se encontrou uma grande pedreira que forneceu material suficiente para toda a construção; caso contrário, as pedras deveriam ser procuradas longe, com muita despesa e muito trabalho, o que sói acontecer com todos os que constroem nesta cidade. Tal fato foi considerado pelos moradores e Religiosos de outras Ordens um especial favor e benevolência do céu. A pedra fundamental deste convento foi lançada no dia 17 do mês de maio do ano acima mencionado. O convento foi construído com as esmolas dos moradores do lugar e também com elas se sustentam 12 ou 13 Religiosos que ali vivem piedosamente etc.

57. A 40 léguas desta Cidade de S. Sebastião encontra-se outra Capitania, a de S. Vicente, a 24 graus e 2 terços, na qual aportou outrora uma esquadra que o rei da Espanha Filipe II enviou ao Estreito de Magalhães, sob o comando de Diogo Flórez de Baldés em cuja companhia vinham quatro Religiosos de nossa Ordem a fim de administrar os sacramentos aos soldados e demais pessoas. Desta vila foram à de S. Paulo, com a intenção de ali morar enquanto a esquadra não levantasse âncoras. Alojaram-se em um capeta de Nossa Senhora da Luz, situada fora da vila de S. Paulo, na qual celebravam devotamente o culto divino. Permaneceram ali pelo espaço de dois anos, dando bom exemplo a todo o povo. Um deles, o Irmão leigo Frei Diogo, de grande virtude, humildade e zelo pela honra de Deus, quando peta cidade esmolava de porta em porta para si e seus companheiros, ofendeu um soldado, notório jurador, blasfemo, dissoluto, inimigo de todos os Religiosos e de todas as virtudes, e de má língua. Ao ouvi-lo jurar, murmurar e dizer muitos palavrões escandalosos, que eram contra os bons costumes dos fiéis, admoestou-o e repreendeu-o publicamente; pediu-lhe com entranhas de amor e de brandura, pelo amor de Deus Onipotente, extirpasse tão vergonhoso vício, tão depravado mal, tão mau costume, pois escandalizava os espectadores e ouvintes e que, pelo modo de falar e agir, dava aos demais ocasião de ruína ou queda, e que Deus reclama o sangue de nossas mãos. Em lugar de agradecer ao Religioso a admoestação feita com amor e humildade, o soldado jurou ante os circunstantes, com blasfêmias, que o mataria por causa de sua audácia. Certa vez, este Frade se recolhia à casa com esmolas para si e seus companheiros; na passagem dum riacho o soldado foi-lhe ao encontro e matou-o a punhaladas, embora o Religioso, de joelhos e mãos erguidas ao céu, implorasse o perdão, porque defendia a honra de Deus, como devem fazer todos os verdadeiros cristãos e sobretudo os Religiosos.

58. Sua morte foi deplorada por todos os moradores daquela terra que o tinham por santo e grande servo de Deus. Enquanto vivera, sua companhia agradara a todos, como se sabe dum sumário autêntico de testemunhas, que fez Frei Jerônimo. Provincial de Nossa Senhora do Monte Carmelo, na mesma vila e Capitania, para a glória de Deus e de seu servo. Seu corpo foi trasladado com grande honra e séquito para o Colégio de S. Paulo, da Companhia de Jesus, na mesma vila, para lá ser sepultado. Deus Ótimo Máximo, por sua piíssima misericórdia, confirmou depois o seu martírio e morte com um grande milagre: uma senhora, que sofria de um fluxo de sangue há muitos anos, sentou-se com grande fé sobre seu sepulcro e incontinenti se levantou curada; divulgando-se o dito milagre, é tido na maior veneração etc."

ILHA, Manuel da (1975). Narrativa da custódia de Santo Antônio do Brasil, 1584-1621 (I. Silveira, Trad.). Petrópolis: Vozes.

 

Cómo citar esta entrada: 
SATLER, Fabiano Aguilar. "Convento Franciscano do Rio de Janeiro". En: BRASILHIS Database: Redes personales y circulación en Brasil durante la Monarquía Hispánica, 1580-1640. Disponible en: https://brasilhis.usal.es/es/religiosidad/convento-franciscano-do-rio-de-janeiro. Fecha de acceso: 17/05/2022.